Por Henrique Bollini
Relógios esportivos em aço com bracelete integrado compõem a lista de desejos de 8 a cada 10 novos entusiastas da relojoaria. O porquê? Um artificial e exponencial crescimento no status que essas características trazem, nutridos por uma procura e valorização desenfreada por modelos outrora esquecidos e que criavam camadas e camadas de pó nos estoques das representantes oficiais, …sim, estamos falando de Audemars Piguet Royal Oak e Patek Philippe Nautilus.


Fora esses dois modelos, existiam outros inúmeros munidos dessas mesmas características na década de 70, muitos deles, inclusive, dividindo um desenho de caixa muito similar – Omega Genève e Omega Seamaster, da primeira metade dos anos 70, e Rolex Oysterquartz e Tissot PRX, da segunda metade dos anos 70, para citar alguns.




Com a “popularização” (leia-se globalização) desse desenho e características, muitas outras empresas produziram seu relógio esportivo em aço com bracelete integrado durante as décadas de 80 e 90. Entre essas empresas está a Orient, com os modelos Crystal, VX e Três Estrelas exemplificados abaixo. O que quero dizer com isso? Que a Orient se inspirar, e muito, nos modelos suíços da década de 70 para a confecção do seu modelo não é uma novidade, nem um fato recente.


Vamos agora aplicar um fast-forward para os anos 2020, quando o assunto relojoaria parecia ter atingido o pico de interesse – um novo movimento dos relógios esportivos com bracelete integrado surge, com os mesmos protagonistas de outrora ganhando notoriedade e com várias outras empresas “surfando essa onda”, voltando a fabricar modelos de características similares após décadas de adormecimento… sabemos quem vocês são! Bem como também sabemos quem nunca (ou por muito pouco tempo) deixou de ter em linha modelos dotados dessas características.
Sem mais delongas, vamos ao assunto da matéria de hoje: o Orient Três Estrelas com bracelete integrado, ou pulseira integrada híbrida em couro/borracha.

Acompanho esse revamp da linha “de entrada” da Orient de perto há algum tempo, sob o olhar atento do Rodrigo Anzanello, que por sua vez vem sendo bem assessorado por reais entusiastas – é um lançamento melhor que o outro! Mas acima disso é uma demonstração de respeito absoluto com o consumidor geral de relógios, desde o iniciante ao mais experiente, mostrando que é possível sim adquirir uma bela peça, de qualidade, com história e relevância por uma quantidade mais do que justa de dinheiro investido.
Disponível (por enquanto) em duas cores, o “3 Estrelas Integrado” esbanja mais uma vez os bons atributos da Orient moderna, mas agora em uma roupagem clássica-atual – e eu não vou perder meu tempo falando sobre desenho de caixa, desenho do bracelete, suas origens e se é cópia ou não. A pergunta que eu quero responder não só a vocês, mas a mim mesmo é: zero km, nessa faixa de preço, o Orient reina?




No contexto geral, a soma do aço 316L com as linhas anguladas e o trabalho de polimento excelente feito pela Orient gerou um produto muito bonito na apresentação. As linhas retas obviamente ajudam a dar mais destaque nos efeitos gerados pela incidência de luz, porém existe um contraponto gigantesco que nem sempre é levado em conta: os cortes são perfeitos a ponto de terem definição sem se transformarem em uma lâmina? Bem, em 95% das arestas desse modelo sim, mas o bracelete tem algumas arestas que precisam de um pouco mais de refino.


O polimento é de muito boa qualidade, dotado de um padrão escovado vertical muito bem executado e um padrão espelhado igualmente bem executado. A caixa mescla bem esses padrões, enquanto o bisel e o bracelete possuem complexidades a mais – no bisel existe um padrão escovado radial em sua lateral e espelhado na face superior, enquanto no bracelete existe uma transição entre o escovado vertical e o espelhado na parte central dos elos. São pequenos detalhes, mas que “sobem a régua” da apresentação geral.




Falando em bracelete, existem duas opções de pulseiras nesse relógio: a pulseira híbrida em couro e borracha na mesma cor do mostrador (ou quase), que possui engate rápido no mesmo padrão do Tissot PRX, e o bracelete em aço, que também possui engate rápido, mas aqui no mesmo padrão do Cartier Santos. O conforto da pulseira híbrida é incontestável! Veste muito bem, é versátil e dá um ar de requinte silencioso ao conjunto – o pênalti, na minha opinião, fica na versão da pulseira para o relógio de mostrador azul, pois o tom de azul entre as partes de couro e borracha não conversam, além de nenhum deles contrastar bem com o azul do mostrador. Já o bracelete foi uma grata surpresa por vestir bem confortável e ter uma construção bem sólida – e isso aqui é mega importante, pois um relógio de bracelete integrado cujo bracelete peca em qualidade e/ou conforto vira um belo peso de papel.




Um outro pequeno detalhe que vale a pena comentar é a adição de um cristal em safira no lugar do cristal mineral e que conta com tratamento antirreflexo na sua face interna e de excelente qualidade, diga-se de passagem! Coisa rara nessa faixa de preço…
Atrás desse cristal encontra-se um mostrador com um bonito efeito sunburst, evidenciado por um quase imperceptível padrão de ranhuras. O logotipo, as três estrelas, os índices e a moldura do datador são aplicados, adotando um padrão predominantemente espelhado que ajuda na legibilidade e na sensação de um produto mais premium – vamos apenas lembrar que estamos falando de um produto de entrada e olhar esses detalhes sob uma lente macro vai sim exibir imperfeições, tá?

Os ponteiros seguem um padrão Dauphine e também são espelhados, com um vinco no meio para incentivar o jogo de luzes e sombras, que sempre ajuda na legibilidade – e falando em legibilidade, essa é surpreendentemente boa para a proposta do modelo, evidenciada pelo contraste, a presença de antirreflexo e pelo tamanho de ponteiros perfeitamente dimensionados para o tamanho do mostrador. Pontos para a Orient em eficiência aqui!

Onde não vou dar pontos, porém, é na janela do datador… tenho experiência com Orients há um tempo e os calendários duplos confeccionados por eles possuem a fama de não alinharem. Aqui a fama permanece, e com alguns agravantes: os dias do mês raramente se alinham com os dias da semana, possuem os numerais mais para a extremidade direita do disco e tamanhos e espessuras de fontes não constantes ao longo dos 31 dias. Um pênalti que passaria nessa faixa de preço, não fosse o outro disco (o do dia da semana) tão bem feito, balanceado e sem esses problemas supracitados.
Responsável pela mecânica desse calendário duplo e localizado atrás do belíssimo mostrador está o calibre YN6, feito pela Epson – que cumpre a sua função de trator muito bem, mas tem a dura tarefa de ser a linhagem direta dos F49 e 469, tão cultuados por sua resistência, resiliência, usabilidade e por serem extremamente manuteníveis. Ele possui 40h de reserva de marcha, oscila a 21.600 vph, tem hacking, tem enrolamento manual e uma precisão bem ok, mas o principal atrativo é a sua linhagem e seu status de trator, e isso o tempo vai dizer como o YN6 se comporta. A corda tem bom peso e o mecanismo é super silencioso no dia a dia, coisa que um Miyota 8000, por exemplo, não se sai tão bem quanto esse aqui.

Na parte de trás da caixa, temos uma tampa rosqueável e sólida (ufa!), que carrega o bonito brasão da Orient e aquela estampa de 4 letras da qual deveríamos nos orgulhar toda vez que a vemos: PPIM. Made in Manaus, baby!!!
Para encerrar, quero agradecer à Impala por ter me cedido o modelo em suas 4 variações por uns dias. Foi muito difícil não sair mostrando o relógio para amigos iniciantes no meio ou que simplesmente querem um bom relógio para usar no dia a dia, abandonando seus Apple Watches… e isso não é pouca coisa! Mostra a plena capacidade da Orient de entregar um produto muito acima da média para a faixa de preço.

Se eu teria? Vamos deixar o desenho da caixa de lado, pois se isso é um problema para você, é só migrar para qualquer outro modelo dessa geração nova de 3 Estrelas que tenho certeza de que estará bem servido! A resposta é um sonoro sim! Sim também é a resposta para a pergunta que fiz mais cedo no artigo – a Orient, de fato, reina nessa faixa de preço!

É claro que as quatro variações estão na Impala. Acione a equipe de atendimento e garanta seu exemplar.

Até um próximo artigo e forte abraço!

