Cinema, relógios… Negócios!

Por Lion Andreassa

Genebra, desejo e posicionamento de marca

No último dia 14, teve início mais uma edição da Watches and Wonders Geneva, o maior salão internacional de alta relojoaria do mundo, reunindo algumas das principais maisons do planeta para apresentar lançamentos, inovações e experiências imersivas. O evento reafirma algo que vai muito além da relojoaria: grandes marcas não vendem apenas produtos — vendem desejo e posicionamento.

E talvez nenhuma indústria compreenda isso tão bem quanto o cinema.

Não é de hoje que a sétima arte se tornou um dos maiores instrumentos de construção de desejo do mercado de luxo.

Afinal, quando um relógio entra em cena, ele não marca apenas o tempo — ele constrói identidade.

O Omega de James Bond não é apenas um acessório: é elegância sob pressão, inteligência estratégica e sofisticação absoluta.

Omega Seamaster Professional Diver 300m (ref. 2541.80) – 007 Contra Goldeneye

O Hamilton em “The Martian”, no pulso do personagem de Matt Damon, representa precisão e sobrevivência quando cada segundo importa.

Hamilton Khaki Navy BelowZero 1000m Auto (ref. H78585333) – The Martian

O Jaeger-LeCoultre em “Doctor Strange” transforma o tempo em elemento quase místico.

Jaeger-LeCoultre Master Ultra Thin Perpetual Calendar (ref. Q130842J) – Doutor Estranho

O Panerai de Sylvester Stallone impõe presença e robustez.

Panerai Luminor “Pre-Vendome” (ref. PAM5218-201/A) – Daylight

O Cartier de “Sex and the City” traduz estilo, independência e status.

Panthère de Cartier Small Yellow Gold (ref. WGPN0059) – Sex and the City

É exatamente aí que mora a magia do cinema.

Hollywood não vende apenas relógios; vende a sensação de usar no pulso uma fração da aura daquele personagem.

O mercado de luxo existe e cresce no Brasil, mas…

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: se essa estratégia é tão poderosa no exterior, por que as grandes marcas relojoeiras praticamente não utilizam o cinema brasileiro como plataforma de divulgação?

Definitivamente, o problema não é a ausência de mercado.

O luxo existe — e cresce — no Brasil.

Segundo dados do setor, o mercado de luxo no país cresce mais de 10% ao ano, mesmo em um contexto global de desaceleração do consumo premium.

No segmento relojoeiro, os números também são robustos.

O mercado brasileiro de relógios movimentou cerca de US$ 1,39 bilhão em 2024, com projeção de atingir US$ 1,85 bilhão até 2033, em crescimento anual composto de 3,2%.

Já a alta relojoaria, especificamente, alcançou US$ 629 milhões em 2024, com crescimento previsto para os próximos anos.

Ou seja: existe público, existe consumo e existe desejo.

São Paulo concentra uma das maiores frotas de helicópteros urbanos do mundo, um ecossistema consolidado de carros superesportivos, boutiques de luxo e um público de alto poder aquisitivo extremamente relevante.

Portanto, a questão claramente não está no mercado.

O verdadeiro ponto de desconexão

Ao analisar o tema mais profundamente e conversar com nomes importantes do setor, a resposta começou a se tornar clara.

Conversei com Renan Távore, da Relojoaria Impala e da Herit Watches, e também com Adriano Passarelli, escritor, entusiasta e especialista em relojoaria.

Curiosamente, ambos convergiram em pontos muito semelhantes.

Segundo a percepção do mercado relojoeiro, as marcas buscam retorno rápido, previsível e mensurável. Por isso, priorizam internet, influenciadores, mídia digital e formatos tradicionais.

Além disso, muitas marcas internacionais operam no Brasil por meio de distribuidoras e não por escritórios próprios, o que reduz significativamente a verba de marketing local e o apetite por iniciativas menos convencionais.

O cinema brasileiro, por sua vez, ainda não é percebido como uma mídia capaz de gerar escala comercial compatível com o investimento. 

Mesmo filmes como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, que chegaram ao Oscar,conquistaram bilheterias extremamente modestas dentro e fora do país.

Hoje, apenas cerca de 12,6% dos próprios brasileiros consomem filmes nacionais, segundo dados recentes do mercado exibidor.

Mas existe um ponto ainda mais delicado: na visão do setor, o cinema brasileiro também não conversa com o mercado global.

A pergunta que realmente fica

Mas talvez a questão mais provocativa não seja por que isso acontece hoje.

A verdadeira pergunta é outra: e se um filme produzido no Brasil fosse capaz de atingir milhões de pessoas, dialogar internacionalmente e transformar o tempo como eixo central de sua narrativa?

Será que as grandes maisons continuariam ignorando o cinema brasileiro ou perceberiam que o Brasil pode ser o próximo grande palco para vender desejo?

Agradecimentos especiais:

Renan Távore e Adriano Passarelli

Fontes:
Brazil Watches Market Size & Outlook (2025–2033), IMARC Group, Grand View Research, Valor, O Globo, Cenário MT, JLeiva Cultura & Esporte, Instituto Datafolha, Ibope, USP, ANCINE, SindCine, Filme B, G1

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é banner-chama-no-whats-1024x289.png

Até a próxima, confrades!