Seiko Presage Craftsmanship Tonneau SPB537

Por Henrique Bolini

O mundo era diferente há 100 anos, mas mesmo contra todas as barreiras que um século poderia colocar, algumas coisas parecem não ter mudado: Jazz ainda é cult, os bens de consumo não essenciais ainda são desejo e o movimento Art Déco ainda vive.

No mundo da relojoaria, há 10 décadas um certo formato de caixa para relógios de pulso ganhava popularidade – ele era (ainda é) conhecido por Tonneau, dada a sua semelhança com um barril e frequentemente creditado a Louis Cartier. Tinha como base o formato distinto e seu conforto no uso, uma vez que o desenho curvo e anatômico “abraçava” o punho.

Apesar de suas origens datarem de 1906, muita gente ainda associa o desenho à Franck Muller, empresa que começou sua história há pouco mais de 30 anos, adotando o desenho Tonneau desde seus modelos primários e é a principal responsável pelo ressurgimento desse estilo de caixa.

O relógio que vou falar sobre hoje poderia muito bem estar em um catálogo da Harrods dos anos 30, mas saiu de uma das fábricas da Seiko no oriente há apenas alguns meses, ou seja, em pleno 2026!

O Seiko Presage Craftsmanship SPB537 possui uma caixa Tonneau de 36mm x 45.6mm, com 12.5mm de altura e concebida em aço inoxidável que transmite muita elegância e sofisticação, especialmente quando combinada ao mostrador esmaltado (que falo mais para a frente, obrigado Rolex pela confusão causada) branco, que se sobressai e deixa a peça ainda mais bonita aos olhos.

Os ponteiros em formato de folha têm uma coloração azulada quando contra a luz e emanam aquele já conhecido processo de esquentar o metal até ele adquirir essa coloração azulada, apesar de não haver registros de que é assim que a Seiko o faz na linha Craftsmanship. Também azulados são os índices, aqui numerais romanos grandes que facilitam, e muito, a leitura das horas.

Completando os toques de requinte, a Seiko apostou em um cristal em safira curvo (porém sem a presença de AR, visando destacar ainda mais a camada “vitrificada” do mostrador), coroa assinada e um bonito bracelete em 5 peças, que deixa a peça com ares mais contemporâneos. Se não quer o visual mais moderno, só trocar por uma bela pulseira de couro marrom, preta ou azul escura. Quer ser mais diferente ainda? Pode abusar das cores na pulseira de camurça!

Lembram que falei ali na introdução que um dos pilares da caixa Tonneau é abraçar o punho? Pois bem, aqui isso não acontece! Por quê? A irritante mania da Seiko de ter que colocar uma tampa traseira “transparente” para que a máquina fique visível. E a escolha aqui foi uma placa de aço e cristal (não saberia dizer se mineral ou safira) que é parafusada à caixa. Se tivessem deixado uma tampa traseira sólida e curvada… masterpiece!

Outro pênalti na opinião desse que vos escreve é o submostrador às 6:00 que tem um indicador 24h. É realmente inútil e deveria ser substituído pela complicação de “small seconds”. Ter o desnível no mostrador é realmente interessante e adiciona uma camada de complexidade ao processo, além de ser lindo de ver contra a luz, mas vamos colocar alguma coisa que preste aqui, né Seiko?

O mecanismo aqui é uma versão do 6R chamada “5H”, da mesma família dos 6R55, por exemplo. Tem os bons predicados de “cavalo de trabalho”, com um par de olhos a mais por parte da Seiko no controle de qualidade. Pulsa a 21.600 vph, tem 72h de reserva de marcha, enrolamento manual e hacking. É bonito? Não, mas funciona que é uma beleza!

Vamos falar agora sobre o mostrador… e, sim… é enamel, propriamente dito! Explico…

Como eu disse lá no começo do texto, a Rolex movimentou muito o assunto “mostradores em enamel” por conta do Daytona lançado na Watches & Wonders desse ano (2026), então acho importante falarmos do processo da Seiko e porque de fato é um mostrador enamel feito com a técnica “aceita” pela terminologia relojoeira da coisa.

Um dos diferenciais da linha Craftsmanship é de fato a sua conexão com técnicas avançadas e manuais de produção, especialmente os mostradores. Todos os mostradores da linha que são esmaltados (enamel) seguem o rigoroso padrão de qualidade do time comandado por Mitsuru Yokosawa, um artesão com 55 anos de experiência, sendo pelo menos 40 deles dedicados a aperfeiçoar a técnica de aplicação de finas camadas de esmalte em superfícies com área útil bem pequena.

Uma das técnicas de confecção de mostradores esmaltados consiste em ter uma base (chapa) metálica com a forma básica de um mostrador que é tratada, tem uma camada de esmalte aplicada sobre sua superfície e posteriormente é exposta a altíssimas temperaturas para se conceber o produto final. Essa técnica tem o nome de “Grand Feu” e, dadas as dificuldades de seu processo (propriedades químicas e físicas do metal base quando exposto a altas temperaturas, necessidade de se estudar condições de temperatura e pressão tanto na elaboração do esmalte quanto no processo de queima em forno), é de difícil execução em massa e custosa do ponto de vista de produção.

A Seiko, apesar de não adotar o nome “Grand Feu”, segue exatamente esse processo na linha Craftsmanship Enamel, por isso todos os relógios acompanham uma TAG com o nome do artesão e esclarecendo que os mostradores podem conter pequenas imperfeições por conta do processo seguido. Ou seja, a tolerância adotada para as imperfeições é mais abrangente que a média, evitando os regulares desperdícios causados por um processo de produção “Grand Feu” propriamente dito.

O resumo da ópera aqui — sempre achei a linha Craftsmanship da Seiko interessantíssima e um ótimo relógio para se ter na coleção, que equilibra muito bem as técnicas artesanais de produção com a robustez de um relógio ferramenta, coisa que pouquíssimos relógios de visual mais formal podem se dar ao luxo de ter.

O modelo já está disponível na Impala, claro. Acione os consultores para garantir sua peça:

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Até um próximo artigo e um forte abraço!