Quando o relógio pega onda: o Spinnaker Fleuss encontra a arte de Drew Brophy

por Tais Carniatto

Quando se olha pela primeira vez para o Spinnaker Fleuss Automatic Drew Brophy “Surfer’s Journey”, a sensação é de que alguém resolveu colocar uma onda no pulso — não apenas como tema, mas como movimento, cor e atmosfera. É um relógio que não pede licença para chamar atenção e que, justamente por isso, merece ser observado com um pouco mais de calma.

Aqui, o ponto de partida não é apenas a relojoaria, mas o oceano. E, mais precisamente, a maneira como um artista enxerga esse universo depois de passar décadas entre ondas, pranchas, viagens e uma cultura que encontrou na arte uma de suas melhores formas de expressão. É desse encontro que nasce o SP-5180-01: uma edição limitada que leva para o pulso a linguagem visual de Drew Brophy, sem abandonar a identidade aquática que faz do Fleuss uma das coleções mais interessantes da Spinnaker.

O resultado é daqueles relógios que provavelmente vão dividir opiniões — e eu acho isso uma qualidade. Há muita cor, movimento e informação no conjunto, algo bem diferente da discrição que costuma dominar boa parte da relojoaria tradicional. Para alguns confrades, pode ser exatamente o que torna a peça especial; para outros, talvez seja informação demais para um relógio que poderia falar mais baixo.

Mas talvez essa seja justamente a proposta. Surfer’s Journey não parece querer passar despercebido. Ele quer transportar para o mostrador uma sensação: aquela relação quase difícil de explicar entre quem surfa e o oceano, entre o começo e o fim de um dia na água, entre contemplar uma onda e simplesmente se jogar nela.

E quando essa história ganha apenas 500 exemplares numerados, o Fleuss deixa de ser somente uma interpretação artística de um relógio de mergulho. Passa a ser também um registro, em escala reduzida, do universo criativo de Drew Brophy — uma pequena obra para carregar no pulso, onde arte e relojoaria literalmente dividem o mesmo espaço.

Do fundo do mar para a cultura do surf

A Spinnaker construiu boa parte de sua identidade em torno do universo náutico. E isso fica especialmente evidente na coleção Fleuss, que presta homenagem a Henry Fleuss, nome associado ao desenvolvimento de um dos primeiros sistemas de respiração subaquática autônoma, no século XIX. A coleção nasceu justamente dessa inspiração: olhar para a história da exploração submarina e reinterpretá-la com uma linguagem contemporânea.

O interessante é que o Fleuss não tenta parecer um instrumento antigo resgatado de um baú. A proposta sempre esteve mais próxima de uma releitura neo-vintage, combinando referências visuais da era de ouro dos relógios de mergulho com uma construção pensada para o uso atual. É uma fórmula que a Spinnaker vem explorando em diferentes versões da coleção, mantendo o DNA aquático enquanto brinca bastante com cores, materiais e interpretações.

E é essa abertura que explique por que o encontro com Drew Brophy funciona tão bem.

O artista norte-americano construiu sua trajetória profundamente ligado à cultura do surf e ao oceano, e sua linguagem visual dificilmente poderia ser descrita como discreta. Ao levar seu trabalho para o Fleuss, a Spinnaker não precisou inventar uma conexão artificial entre dois mundos que já tinham algo importante em comum: a água como parte da identidade.

Na minha opinião, esse é o ponto mais interessante da colaboração. A proposta parece partir de uma ideia mais ampla: transportar para o pulso o ritmo, as cores e a atmosfera que fazem parte desse universo. A própria Spinnaker define a colaboração a partir da relação entre tempo, instinto e condições — elementos que fazem parte da experiência de quem está no mar. É uma mudança de perspectiva que pode parecer pequena, mas faz diferença. O Fleuss nasceu olhando para baixo, para o mundo subaquático. Com Drew Brophy, ele passa a olhar também para cima: para a superfície, para a luz, para o horizonte e para tudo aquilo que acontece antes e depois de uma onda.

E é nesse ponto que o “Surfer’s Journey” começa a fazer sentido. Não como uma ruptura com o Fleuss que já conhecemos, mas como uma interpretação particularmente livre de sua vocação marítima — talvez uma das mais coloridas que já passaram pelo modelo.

Quando o mostrador vira uma onda

É aqui que a proposta de Drew Brophy realmente ganha vida.

No Fleuss “Surfer’s Journey”, a arte não está simplesmente aplicada sobre o mostrador como uma decoração posterior. Ela participa da construção visual do relógio e se estende pelo bezel de cristal, criando uma composição contínua que faz a peça parecer uma pequena paisagem marinha vista de diferentes ângulos.

A obra foi inspirada na própria relação de Brophy com o oceano e traduz uma espécie de jornada visual entre luz, água e movimento. Os azuis mais profundos se encontram com tons quentes que remetem ao nascer e ao pôr do sol, enquanto as ondas percorrem o conjunto. É um mostrador bastante expressivo — e, particularmente, acho que esse é o tipo de relógio que funciona melhor quando observado no pulso do que em uma fotografia de catálogo.

Há também uma escolha interessante na maneira como a arte se comporta quando as luzes se apagam. Elementos da composição ganham vida no escuro através da aplicação de material luminescente, fazendo com que a identidade artística do relógio não desapareça completamente à noite. É um detalhe que pode parecer secundário à primeira vista, mas ajuda a conectar estética e funcionalidade.

Por trás de toda essa liberdade visual continua existindo o Fleuss que a gente conhece. A caixa mantém a proposta de um relógio de mergulho automático, com 43 mm de diâmetro, espessura de 13.0 mm, um Lug de 51.0 mm e a construção preserva aquela combinação de inspiração vintage com uma presença bastante contemporânea no pulso. Para quem prefere relógios menores, vale dizer: não é uma peça que passa despercebida — e os 43 mm certamente fazem parte dessa personalidade.

O cristal é safira, escolha coerente para uma peça dessa proposta, enquanto o bedel unidirecional reforça sua vocação de mergulho. A resistência à água chega a 150 metros, e a coroa rosqueada ajuda a completar o conjunto voltado para o ambiente aquático.

No interior, o Fleuss é movido por um movimento automático japonês, o Miyota 8215, que bem conhecemos e que mantem a proposta mecânica da coleção.

A pulseira acompanha essa mesma filosofia e contribui para reforçar o caráter esportivo da peça, sem tentar competir visualmente com aquilo que acontece no mostrador.

Mas talvez o dado que mais ajude a entender a natureza dessa edição esteja gravado em cada exemplar: são apenas 500 unidades produzidas, individualmente numeradas.

Isso muda um pouco a conversa. Não estamos diante de uma coleção criada para agradar ao maior número possível de pessoas. É uma colaboração assumidamente específica, com uma identidade visual forte e uma proposta bastante particular. Você pode amar a quantidade de informação no mostrador ou achar que Drew Brophy foi longe demais — e, sinceramente, acho que as duas reações são perfeitamente compreensíveis.

O que é difícil é olhar para o SP-5180-01 e chamá-lo de genérico.

Também não acho que seja necessário romantizar tudo. O movimento Miyota 8215 é simples diante de propostas relojoeiras mais sofisticadas, e os 43 mm de caixa certamente não serão confortáveis para todos os pulsos. Mas talvez cobrar outra coisa dessa edição seja perder de vista aquilo que ela realmente pretende entregar.

“Surfer’s Journey” não foi criado para vencer uma competição de especificações. Foi criado para contar uma história visual. No fim das contas, talvez seja essa a graça de uma boa colaboração: quando dois universos diferentes se encontram e nenhum dos dois precisa desaparecer para que o outro apareça.

O oceano já estava no DNA do Fleuss. Drew Brophy apenas encontrou uma maneira muito particular de colocá-lo para surfar no pulso.

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Foi um prazer estar aqui mais uma vez e espero que tenham gostado da leitura e do modelo, claro.

Até a próxima aventura, confrade! Abs e fique bem!