Por Henrique Bollini
Durante os anos 60, a história da Seiko se dividia em duas fábricas: Daini Seikosha e Suwa Seikosha. Das cabeças pensantes dessas duas fábricas, duas linhas de relógios surgiam e iriam mudar a história dos relógios japoneses para sempre… Grand Seiko era uma delas e, graças a um amplo e muito bem pensado e aplicado marketing, hoje não necessita de introduções, nem mesmo ao público mais “cru” no assunto. A outra? É assunto para a matéria de hoje do blog!
A King Seiko surgiu como o “topo de linha” da Daini Seikosha, enquanto o Grand Seiko era o “topo de linha” da Suwa Seikosha e o que eles tinham em comum? Baterem de frente com os melhores suíços da época, lembrando que estamos falando de tempos nos quais as competições de observatórios “separavam os meninos dos homens”. Mais do que apenas ser uma linha de modelos, a King Seiko tornou concepções de design e mecanismos imortais, tendo vários produtos em sua prateleira não apenas replicados como fonte de inspiração para muita coisa boa que veio na indústria a seguir. Querem um exemplo? Leiam sobre o calibre 45…
Eu tenho a felicidade de ter um KS (apelido carinhoso dado aos King Seiko, nada a ver com aquele certo vasilhame de refrigerante que já dá sede só de imaginar) de 1971, dotado de um calibre 4502, em minha coleção particular. É um relógio sobre o qual eu continuo a descobrir coisas extraordinárias, mesmo que já o possua há algum tempo e julgando que conhecia tudo a respeito do modelo. Poucos relógios são capazes de nos surpreender mesmo passados mais de 50 anos de sua fabricação. O King Seiko do qual falaremos hoje parte dessa mesma premissa…

Em tempos nos quais a “Grand Seiko” decola como marca apartada e que a “Credor” parece querer seguir o mesmo caminho, a linha “King Seiko” ainda segue a lógica adotada lá no começo: ser uma linha dentro da Seiko e não uma marca apartada. A maioria das pessoas vai chamar de “Seiko caro”, mas quem realmente conhece a história e o porquê dessa linha existir sabe que está bem longe disso… pense nela como uma oportunidade de ainda adquirir um Seiko topo de linha do jeito que era feito antigamente e de ter um relógio que briga sim de igual para igual com um Grand Seiko similar sem precisar de hype ou exibir uma outra marca no mostrador para tentar se destacar.
Ao abrir a caixa e se deparar com um estojo em couro com o característico escudo que marcava a linha no seu início, o produto deixa bem claro seu posicionamento um degrau acima — mas será que essa impressão da embalagem se propaga ao produto? Vamos aos detalhes do SJE121…

Os pilares da afamada “Gramática do Design da Seiko”, concebida por Taro Tanaka e que teve uma forte inspiração na lapidação de pedras preciosas, são superfícies planas, polimento espelhado perfeito, ângulos bem definidos para jogos de luz e sombra e mostradores bem legíveis acompanhados de marcadores e ponteiros facetados. Bem, todos esses detalhes estão presentes na caixa belíssima do King Seiko… mas o desenho da caixa em si intriga e essa era outra fortíssima característica da Seiko, que alçava voos ainda maiores nas suas linhas mais para o topo da gama. Ora, o desenho mais “cushion”, mas ainda dotado de uma abertura de mostrador menor, faz o relógio parecer mais compacto e equilibrado e a linha de ombro da caixa, curva, transparece em uma sensação de “abraço” no punho.

Tenho minhas dúvidas, porém, se a escolha da superfície inteiramente espelhada, ao invés de ter uma transição entre um espelhado perfeito e um escovado que só a Seiko sabe fazer, não seria uma escolha melhor aqui, especialmente para brincar ainda mais com o jogo de luz. Ao comparar diretamente com meu antigo KS, fica claro o porquê dessa escolha – a superfície espelhada faz as medidas do relógio “expandirem”… faz sentido! A caixa mede 39mm em seu diâmetro, 10mm de espessura e 43.5mm na distância entre os pinos, aliás.

Passando para o bracelete, temos uma concepção complexa em 13 peças por elo, alternando entre superfícies escovadas e perfeitamente espelhadas e um fecho duplo ao estilo borboleta, que é bem feito, mas não é excepcional e apresenta uma certa folga. Apesar de bonito, vou dizer que é o ponto fraco do relógio – por mais que os antigos braceletes, possivelmente feitos pela Stelux, tivessem problemas de folgas com o passar dos tempos, me pareciam mais à altura do conjunto do que os atuais.

O mostrador tem um contraste leve e muito chique em seus tons de cinza (que pode transitar para o marrom a depender da luz) e dourado, conta com os característicos marcadores e ponteiros facetados para melhor jogo de luz e consequente legibilidade (vamos lembrar que esse relógio não conta com presença de material luminoso), um relevo de padrão intrincado (que traz profundidade, mas que não sei se é meu favorito da linha), logotipo aplicado, impressões perfeitas e um curioso índice serrilhado às 12h, que tem sua inspiração em isqueiros de luxo, segundo a Seiko.

Demais características incluem um cristal em safira com tratamento antirreflexo na face interna, coroa assinada com o escudo da King Seiko, que também está presente na tampa traseira – aqui rosqueada e sólida, escondendo o excepcional calibre 6L35 (L, de laranja, ok?).

A família de calibres 4L/6L da Seiko (não confundir com o 8L, que tem a sua origem dos 4S) tem sua origem nos anos 2000 (4L25 e 4L75) e foi concebida para o uso na indústria suíça, sendo que pouquíssimos relógios da marca os utilizaram até 2018, quando o 6L35 foi apresentado no Presage SJE073 (o real “baby Grand Seiko”) e, um ano depois, o 6L75 foi apresentado na linha “GCCD” da Credor. Desde então, esses calibres vêm pulsando em modelos de gama mais alta, como o KS do qual estamos falando hoje. Ele oscila a 28.800 vibrações por hora, possui 26 joias, conta com 45h de reserva de marcha, possui as complicações de calendário, hacking e corda pela coroa. É um movimento esbelto (com impressionantes 3.7mm de espessura, bem como o ETA 2892), com as características da escola suíça previamente adotadas pela linha 4L sendo substituídas para a escola japonesa na linha 6L.

Limitado a 800 peças, o SJE121 traz a essência da linha King Seiko, juntamente com uma caixa muito bem executada e característica e um calibre de alta performance, além de uma singela homenagem a Kintaro Hattori, fundador da Seiko, com o padrão do mostrador replicando relógios de bolso que eram vendidos na Hattori Tokeiten, em Ginza. O valor? Basta olhar a prateleira da Grand Seiko e voltar aqui…

Claro que a Impala já recebeu essa peça.
Então já sabe o que fazer! Acione a equipe e garanta o seu:

Abs e até a próxima!

