Quando a luz ganha forma: os novos Citizen PHOTON celebram 50 anos de Eco-Drive

Por Renan Távore

É curioso pensar que, depois de 50 anos utilizando a luz para mover seus relógios, a Citizen tenha escolhido justamente questionar a própria natureza da luz para celebrar esse aniversário. O resultado são os novos Eco-Drive PHOTON BJ6560-53W e BJ6569-59X, dois modelos que partem de um dos experimentos mais famosos da física para transformar ciência em linguagem relojoeira.

E é isso que mais me chamou atenção no PHOTON. A inspiração no Experimento da Dupla Fenda não aparece apenas como uma história bonita para acompanhar o lançamento. Ela está literalmente no mostrador, na maneira como suas camadas se sobrepõem, na passagem da luz pelas frestas e até no funcionamento do próprio Eco-Drive. Aqui, conceito, estética e engenharia parecem ter sido pensados como partes da mesma ideia.

Visualmente, também não estamos diante de um Citizen discreto — e digo isso como elogio, embora certamente seja um daqueles relógios capazes de dividir opiniões entre os confrades. O PHOTON tem presença, textura, profundidade e uma aparência quase futurista. Na minha opinião, porém, faria pouco sentido comemorar meio século de uma tecnologia tão importante para a marca simplesmente criando mais uma edição comemorativa convencional. A Citizen preferiu experimentar. E é justamente aí que esta história começa.

50 anos de Eco-Drive: da luz como energia à luz como linguagem

A história que desemboca no PHOTON começa em 1976, quando a Citizen apresentou o Crystron Solar Cell, reconhecido pela própria marca como o primeiro relógio analógico do mundo alimentado por luz. A ideia havia surgido alguns anos antes, em meio à crise energética da década de 1970: desenvolver um relógio capaz de aproveitar uma fonte de energia limpa e que dispensasse a troca periódica de baterias.

FOTOS: FRATELLO

O que veio depois foi um processo contínuo de aperfeiçoamento. Em 1986, a Citizen já havia alcançado cerca de 200 horas de funcionamento com carga completa. O nome Eco-Drive seria adotado em 1994 e, no ano seguinte, a marca chegaria a modelos capazes de funcionar por seis meses com uma única carga. Décadas mais tarde, em 2016, o Eco-Drive One levou essa busca pela eficiência também para a miniaturização, com um movimento de apenas 1 milímetro de espessura. Em 2023, o calibre E365 abriu outro capítulo ao atingir aproximadamente 365 dias de autonomia com carga completa.

É uma evolução interessante porque o Eco-Drive deixou há muito tempo de significar simplesmente “um Citizen solar”. A tecnologia consegue converter tanto a luz do sol quanto fontes de iluminação artificial em energia e acabou se tornando uma das identidades mais reconhecíveis da fabricante japonesa. Hoje, segundo a Citizen, relógios com Eco-Drive estão presentes em cerca de 140 países e regiões.

E aqui está, para mim, o ponto que torna a comemoração dos 50 anos particularmente interessante. Seria relativamente fácil revisitar um relógio histórico, mudar algumas cores e colocar um “50th Anniversary” no fundo da caixa. A Citizen seguiu outro caminho. No PHOTON, ela resolveu olhar novamente para aquilo que sempre esteve no centro do Eco-Drive: a própria luz.

Só que, desta vez, não apenas como combustível.

Ela passa a ser matéria-prima do desenho, objeto de estudo e parte visível da experiência do relógio. Depois de meio século aprendendo a captar luz para movimentar ponteiros, a Citizen decidiu usá-la também para construir o mostrador. E é justamente aí que entramos no território bastante incomum do PHOTON.

Quando a física vira mostrador

O nome PHOTON vem de fóton, a partícula elementar da luz, e a Citizen levou essa referência diretamente para o design do relógio. O ponto de partida foi o famoso Experimento da Dupla Fenda, conhecido por demonstrar o comportamento da luz como partícula e onda.

Essa inspiração aparece na construção do mostrador, formado por placas metálicas sobrepostas com frestas que criam um efeito tridimensional e permitem a passagem da luz até a célula solar do Eco-Drive. Entre essas camadas, a Citizen aplicou um filme de cor estrutural sem pigmento, cuja tonalidade se altera conforme o ângulo e a incidência da luz. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do PHOTON: o conceito científico não serve apenas como argumento de lançamento. Ele interfere diretamente na estética e no funcionamento do relógio.

É um mostrador complexo, ousado e certamente capaz de dividir opiniões entre os confrades. Mas talvez seja justamente essa a graça. Em vez de criar uma edição comemorativa previsível, a Citizen decidiu transformar a própria luz em parte visível da experiência do relógio.

BJ6560-53W: a interpretação mais sóbria do PHOTON

Entre os dois lançamentos, o BJ6560-53W é, para mim, o mais fácil de encaixar no pulso no dia a dia. A caixa octogonal arredondada e o bracelete integrado seguem a proposta futurista do PHOTON, mas o acabamento prateado em Super Titanium com Duratect equilibra um pouco a complexidade do mostrador. O contraste fica por conta principalmente do ponteiro de segundos amarelo e das cores que surgem entre as frestas conforme a luz incide sobre o relógio.

As proporções também ajudam: são 39 mm de diâmetro, 9,9 mm de espessura e 46,7 mm de lug to lug, com peso de apenas 82 gramas. O conjunto recebe cristal de safira, fundo rosqueado, índices e ponteiros luminescentes e resistência à água de 50 metros. O bracelete, também em Super Titanium, mantém a integração visual da caixa e tem 20 mm de largura.

Por dentro está o novo calibre E036 Eco-Drive, com precisão declarada de ±15 segundos por mês e autonomia de aproximadamente um ano com carga completa no modo de economia de energia. A Citizen produziu o BJ6560-53W em uma edição limitada a 5.000 unidades no mundo, com numeração individual gravada no fundo da caixa.

Na minha opinião, é justamente essa versão que deixa o mostrador assumir o protagonismo. Ainda estamos diante de um relógio bastante diferente — talvez até estranho para os confrades mais tradicionais —, mas a caixa prateada cria um contraponto interessante e evita que todos os elementos disputem atenção ao mesmo tempo.

BJ6569-59X: quando o PHOTON abandona qualquer discrição

Se o BJ6560-53W tenta equilibrar a complexidade do mostrador com uma aparência mais sóbria, o BJ6569-59X segue exatamente pelo caminho contrário. É a interpretação mais ousada do PHOTON e, particularmente, a que melhor traduz o caráter experimental que a Citizen quis dar à comemoração dos 50 anos do Eco-Drive.

A mesma caixa e o bracelete integrado são produzidos em Super Titanium, mas aqui recebem uma combinação de Duratect em tom âmbar com Duratect DLC escuro. O contraste deixa a geometria do relógio muito mais evidente e conversa diretamente com as cores que surgem através das frestas do mostrador.

As demais bases técnicas seguem iguais (proporções de tamanho, vidro, vedação etc). Assim como a versão anterior, o BJ6569-59X é limitado a 5.000 unidades no mundo.

Na minha opinião, é justamente aqui que o PHOTON mostra sua personalidade por inteiro. Não é uma combinação de cores que tenta agradar a todos — e provavelmente alguns confrades vão considerar o conjunto excessivo. Eu, porém, acho coerente com a proposta. Se a ideia era criar um relógio experimental para marcar meio século de Eco-Drive, esta é a versão que parece menos preocupada em se comportar como um Citizen convencional.

Considerações – De confrade para confrade

O PHOTON é um daqueles relógios que fazem mais sentido quando entendemos o que existe por trás do desenho. À primeira vista, ele pode parecer apenas futurista, até exagerado. Mas, conforme a história se revela, fica claro que cada camada, cada fresta e cada mudança de cor está conectada àquilo que a Citizen quis celebrar: 50 anos transformando luz em energia para medir o tempo.

Entre os dois, acredito que a escolha vai depender muito mais de personalidade do que de especificações. O BJ6560-53Wé mais contido e deixa o mostrador falar mais alto; o BJ6569-59X assume sem medo o lado experimental e transforma o conjunto inteiro em protagonista. Eu consigo entender perfeitamente quem escolheria qualquer um dos dois — e também quem olharia para ambos e diria que não são para o seu pulso. E esse é, justamente, o melhor sinal de que a Citizen acertou. Um relógio comemorativo não precisa ser unanimidade. Precisa ter algo a dizer.

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Na próxima semana, seguimos juntos, confrades, para mais uma história em que engenharia, design e relojoaria se encontram por caminhos que nem sempre são os mais óbvios.

Um abraço e até maaaaaais!